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  • sexta-feira, 7 de setembro de 2012

    SEM TÍTULO

                 JAIME ACIOLI/DIVULGAÇÃO
    Bet Katona - sem título - 2012 
    Logo após adentrar o Espaço Apis, ocupado pela exposição “O que te escolhe, te move e alcança o mundo”, se vê à direita uma abertura que indica a passagem para uma segunda sala. Ao seu lado, em formato retangular que recorda uma porta, há um quadro de autoria de Bet Katona. Adequado seria lidar com este objeto tendo em mente a tradição da pintura, ou seja, pensa-lo como uma janela. Mas o que se vê através desta imagem?

    A estrutura visual desta pintura frisa, em parte, o seu contorno, tal qual uma moldura. Poderíamos afirmar, então, que se por um lado este trabalho não é moldurado, por outro incita um retângulo sobre/dentro do objeto retangular. A cor preta que dá este efeito contrasta de modo pungente com um tom de rosa fluorescente. Impressiona o modo como esta imagem salta aos olhos dentro do espaço expositivo e me obrigou a voltar a ela mesmo que estivesse já do outro lado da sala, criando uma ansiedade em construir um inventário pessoal de apreensões em diversos ângulos. 

    Essa potência visual se deve ao seu caráter monumental pautado na economia formal. Não se tira, nem se põe nada nesta pintura; precisão e verticalidade parecem ser as molas-mestras desta pesquisa artística. E o que são estas formas? A pergunta já denuncia a minha primeira resposta – o quadrado quase ao centro retângulo me incita relações óbvias e que me deixam em um lugar seguro: Malevich, Mondrian e Van Doesburg. Há algo, porém, de diverso aqui: ele tem pernas. Duas linhas pretas partem de seu centro e uma delas esbarra com semelhante forma à sua direita. 

    Distancio-me da imagem e volto a observar uma janela tal qual ditada por Alberti. Haveria, então, incidência mimética e de perspectiva? Estaríamos diante da recodificação de uma paisagem? Seria isto uma máquina? Leio a plaquinha com seus dados técnicos e me surpreendo: “sem título”. É interessante a ausência de qualquer nome próprio para esta imagem.

    A partir do silêncio desta pintura, duvidar se faz essencial. Sem identificações, sem direcionar a leitura do espectador, sem deixar marcas de pincel sobre a tela. Como já diria Leonardo da Vinci, “a pintura é poesia muda” – e a mudez, em um mundo tão verborrágico, é mais do que bem-vinda.



    Raphael Fonseca

    Crítico, historiador da arte e curador. Professor do Colégio Pedro II.

    sexta-feira, 10 de agosto de 2012

    ENSAIO - Olhe para o meu boné

    Monumento ao Padre Cícero - Raphael Fonseca

    Juazeiro do Norte, Ceará. Na Rua do Horto, subida que parece interminável quando somada ao sol escaldante, casas justapostas. Na ausência de quintais e de vazios entre as construções, a rua e a calçada se transformam em um misto de espaço de descanso e de compartilhamento daquilo que poderia vir a ser trancado na fortaleza que é toda casa.

    Ao fim deste percurso, a imagem que se anunciava acima das montanhas no momento da partida: o homem, o mito, o padre e, um dia, o prefeito, Cícero Romão Batista. Tão impactante quanto a figura do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, com dez metros a menos e construído trinta anos depois, seus braços não estão abertos. No lugar da recepção acalorada e que faz lembrar a crucifixão, o Padre Cícero é apresentado de modo retilíneo como uma coluna – e haveria melhor apresentação para um homem que é símbolo do poder?

    Uma mão segura um chapéu, como um ato de cumprimento, enquanto a outra apoia o corpo sobre uma bengala; falecido aos noventa anos, Cícero aqui é a personificação da experiência e lança seu olhar para a paisagem desta cidade cuja existência deve muito ao seu tino. Ao redor da base deste monumento, sobre seu corpo, milagres são procurados: nomes próprios, desejos e agradecimentos se misturam dando forma a um livro a céu aberto da fé.

    À frente desta escultura, algumas estruturas de ferro que lembram arquibancadas. Homens com suas máquinas fotográficas (um dia lambe-lambe e agora todas digitais) circulam o espaço e oferecem seus serviços. Não resisto e pretendo levar para casa um cartão postal personalizado, ou seja, um retrato fotográfico meu presente nesse ponto turístico. Subo numa das estruturas e, assim como um Tiziano coordenava e inseria o retratado em um esquema visual, tenho meu corpo dirigido pelo fotógrafo.

    “Mantenha o corpo reto”, ele diz. Ajusta a lente e depois pede: “Agora olhe para o meu boné”. Claro, como poderia ter uma imagem minha iluminada pelo olhar seguro de Cícero evitando o contato direto com o espectador? Na simulação de sua postura confiante, duas poses são tradicionalmente possíveis: em uma foto ergo a minha mão direita, como se tocasse o homem santo. Na outra, me coloco abaixo dele e sou abençoado. Em dez minutos elas já estão impressas, portadoras de bordas verdes e de um texto que não deixa dúvidas de que estes retratos foram produzidos em Juazeiro do Norte em data específica.

    Posso não ser nada religioso, mas se existe algo em que acredito é no poder das imagens e na capacidade de que nós, humanos, temos de atribuir respeito e sentido a estes espelhos de nós mesmos – seja em caráter monumento e público, seja em um frágil pedaço de papel postado a um ente querido.


    Raphael Fonseca
    Crítico, historiador da arte e curador. Professor do Colégio Pedro II.

    sexta-feira, 6 de julho de 2012

    LÍVIA AQUINO - Vórtice

    Oito fotografias horizontais se encontram ladeadas dentro do Centro Cultural São Paulo na exposição “Da natureza”, de Lívia Aquino. Ao caminhar, percebemos um número maior de paisagens tropicais que acompanha algumas imagens mais áridas. Deserto, canyon e cacto podem ser tidos como contraposição ao verde, cipós e raízes proeminentes. Diferente do que esta descrição pode fazer parecer, não se tratam de registros fotográficos daquilo que foi criado pela deusa Gaia (ou pela Mãe Natureza); três dados se apresentam dissonantes.

    Lívia Aquino, "Da natureza", 2012

    Lâmpadas aparecem na parte de cima de todas estas fotos. Devido à sua luz podemos perceber que há um contraste entre figura e fundo, ou seja, a uma imagem pintada se justapõem objetos tridimensionais. As folhas de árvores são, portanto, fruto do trabalho artesanal da pintura. Estas imagens “da natureza” acabam por dizer mais “do homem” e do seu esforço por apreender e simular de forma bidimensional aquilo que nos cerca.

    Ao centro, no espaço um dia reservado para a apoteose da perspectiva, as bordas de um retângulo nos aguardam. Este polígono dentro do polígono que é a imagem fotográfica se apresenta como um objeto; parafusos à sua esquerda mostram que se trata de uma pequena porta. O elemento que permitiria entrar ou sair desta cenografia é o mesmo que explicita o caráter fictício dos panoramas pintados. O ponto de fuga aqui é literal. A paisagem se apresenta, assim como o fantasma de Malevich que assombra estas imagens, como artifício e construção.

    Na área de baixo, um elemento circular quebra com estes ângulos retos. Num segundo olhar, sua estranha essencialidade o configura como um punctum fotográfico – trata-se de um ralo. Mas o que diabos este objeto causador de vórtices faz neste conjunto? Após algum tempo de reflexão, uma suspeita e constatação nos lança de modo espiralado para um cano: estamos à frente de registros de viveiros de animais aquáticos. Na sua ausência, fomos colocados em seu lugar e nadamos daqui para ali, presos nesta caixa de vidro às vezes transparente, mas sempre trapaceira que é a arte, que é a natureza e que é a existência.

    A fotografia, esta técnica que um dia foi filha da Ciência e da Verdade (com letras capitais maiúsculas), é colocada a serviço de uma narrativa teatral: a paisagem artificial como palco e quatro cortes que são fendas para esta coxia que é a interpretação do espectador.


    Raphael Fonseca
    Crítico e historiador da arte. Professor do Colégio Pedro II.


    sexta-feira, 22 de junho de 2012

    CRISTINA SALGADO - Vermelho terra


    No terceiro andar do Centro de Artes Hélio Oiticica, dentro da exposição “Espelho refletido”, vemos formas orgânicas suspensas, como que a levitar. Se tomarmos distância e nos colocarmos do lado oposto destas esculturas, apreenderemos uma imagem que recordará Pablo Picasso. As experiências do artista em realizar imagens esquemáticas de mulheres em repouso, mas que incitam o movimento através da sinuosidade da linha, são aqui refletidas de modo fragmentado. Longe de compor uma figura clara, nas esculturas de Cristina Salgado fruímos as fatias de carne que compõe isso que apelidamos de “humano”.

    Ao tomar proximidade, as formas abstratas se tornam pedaços de um corpo que se explodiu em pequenos meteoros. Dois olhos agora são percebidos como mamilos. As estranhas formas que brotavam de dentro dessas estruturas se configuram como dedos. Lado a lado, se um dedo está ereto e indica uma direção, o outro, assim como uma trompa, ameaça flagelar um seio com sua unha afiada. Janelas da alma pendem e pedem que as nossas se voltem para cima. Circundando-as, pequenos hominídeos flutuam e aguardam o toque do ferrão (ou da unha) “da abelha que voava ao redor de uma romã” para que acordem deste sonho (ou seria um pesadelo?).

    Falando em miniaturas, carimbos atravessam as paredes e instauram uma pista de corrida: tendo como ponto de partida os contornos da nudez de uma mulher, a proliferação de marcas em diferentes estados de impressão de pessoas a conduzir cavalos. Nuvens de acúmulo ladeiam áreas mais dispersas e saltam aos olhos algumas solitárias imagens de um grande rosto feminino que substitui os pictogramas assexuados de cavaleiros – o grito de uma amazona?

    Um ensaio sobre o vermelho com duas camadas de leitura: a primeira, cromática, se apresenta no pastel da pele, no róseo dos mamilos e no scarlet do esmalte. A outra interpretação se dá de modo mais iconológico: o rubro que advém do sangue e que pode se relacionar à violência, mas ao mesmo tempo se vincula ao desejo sexual – e haveria algo mais contraditório do que este ato que fica entre a dança e a luta?

    As vísceras de uma “lady in red”, onde a dama está mais para femme fatale. Em vez de buscar o glamour que a cor poderia oferecer, mais apropriado é um tom de vermelho terra que nos coloca em uma relação instintiva e, nesse sentido, “primitiva” no embate entre o outro e nossas pulsões.


    Raphael Fonseca
    Crítico, historiador da arte e professor do Colégio Pedro II.


    quinta-feira, 7 de junho de 2012

    EXPOSIÇÃO - Devaneios

    A Casa França-Brasil acolhe até o dia 8 de julho a exposição “Miragem”, de Regina de Paula, dentro do Projeto Cofre. Ao mirarmos o pequeno cofre desse prédio que já foi a Alfândega, constatamos que o espaço para entrada do corpo dos espectadores está ainda mais restrito que o habitual – nos resta um semi-arco onde três pessoas já são uma multidão. A instaurar esta forma, uma chapa de acrílico que protege um monte de areia de 1,45m de altura.


    É curioso confrontar a imagem e a presença perante este bloco que causa certo confinamento à denotação da palavra “miragem”. Em um dicionário encontro “efeito óptico que ocorre nas horas mais quentes, especialmente nos desertos, produzido pela reflexão da luz solar, que cria uma imagem semelhante a um lago azul, onde por vezes se refletem imagens”. Onde está esta porção de água? Ausente, a miragem aqui não será feita no deserto, mas ela é esta própria zona árida. Sem sol, mas com a luz artificial, as imagens não serão rebatidas sobre a superfície cristalina, mas sobre o acúmulo de pó que é batizado como areia. Não há reflexo como fenômeno da Física, mas como experiência da Arte. Exerçamos, portanto, o nosso olhar.

    Próximas às margens de acrílico, as linhas horizontais formadas pelo empilhar da areia. Sobre elas, porém, alguns pequenos volumes de areia fogem à qualquer tentativa de ordem; como dar uma forma exata a um conjunto de grãos? Esses montinhos de vida curta, destruídos e construídos com um assoprar, remetem a montanhas: as que cortam o Rio de Janeiro, as que foram esfumaçadas por Leonardo da Vinci e as que estão contidas dentro de pequenas garrafas, coloridas e também arenosas. Mais abaixo, os encontros destas partículas criam sugestões de desenhos: se uns parecem pender para baixo, outros são cones passageiros rumo ao teto. Um protótipo de gruta feito de areia? Um aquário às avessas: fantasmas de oásis rondam estas formas pontilhistas que se assemelham a estalactites.

    Esta ampulheta gigante refletirá paisagens criadas pela apreensão do espectador. A passagem do tempo será a responsável pela transformação da matéria e pela ampliação de devaneios que esta quimera de areia possibilita. Este deserto não tem um São Jerônimo, mas assim como o santo, nos colocamos a tentar traduzi-lo em palavras.


    Raphael Fonseca
    Crítico e historiador da arte. Professor do Colégio Pedro II.



    sexta-feira, 25 de maio de 2012

    PAÇO DAS ARTES - SP - O pitoresco mora ao lado

    “Viagem pitoresca através do espaço ao redor da minha casa” de Daniel Caballero

    No Paço das Artes, em São Paulo, estão abertas as exposições relativas à 2ª e 3ª Temporada de Projetos. Seis artistas com diferentes pesquisas visuais apresentam seus trabalhos. Após se passar pelas pinturas de Paulo Almeida ou pelas colagens com cédulas de Rodrigo Torres, há o encontro com outra série de imagens expostas sobre a parede.

    Prendedores sustentam folhas de papel de diversos tamanhos que sutilmente se sobrepõe e sugerem a forma de um irregular mosaico. À primeira vista são “desenhos detalhados da natureza”. Com um olhar atento, fica claro que nenhuma imagem é dada de modo direto. Uma árvore surge ao centro do papel, numa configuração semelhante à ilustração científica. Seu protagonismo, porém, é parcial; um poste, um filho da “natureza hominídea”, é envolvido por seus galhos. Há o atravessamento de elementos discrepantes: a árvore que se alastra de modo horizontal e pictórico através de suas folhas e a coluna elétrica que intervém linearmente com seus cabos que escapam das margens. Ambas as bases destas diferentes colunas metropolitanas estão pintadas de branco; o que leva o homem a tentar aproximar visualmente árvore e poste? De que adianta homogeneizar seus “pés” se será necessário rasgar parte da árvore para que a eletricidade se propague?

    Um agrupamento de objetos no espaço expositivo amplia a tensão encontrada nestes desenhos. Uma estrutura assimétrica construída com pedaços de madeira e fita adesiva se transforma em um altar para fragmentos de florestas – não há espaço para árvores, mas para maquetes da paisagem, pequenos vasos de plantas. Canos se interceptam e criam um ruído na apreensão desta estufa fictícia: a linha que ditava ambiências sobre o papel, ganha um caráter expressivo no espaço e impossibilita o domínio por parte do público. Há aqui a lembrança visual de Franz Weissmann somada à consciência de que os ventos contemporâneos são outros. Como dar conta das múltiplas direções desta instalação em um olhar ou fotografia?

    “Viagem pitoresca através do espaço ao redor da minha casa” é o título deste trabalho de Daniel Caballero. Não se pode mais falar num “Brasil”, tal qual Rugendas o fez em seu álbum de imagens, em 1835, assim como não é possível dar conta da diversidade paisagística de São Paulo. Por outro lado, é possível compartilhar a apreensão daquilo que está ao redor de nosso ninho e codifica-lo em visualidade. Transformar suas gambiarras em arte é iluminar não só as precariedades de outras cidades pelo globo, mas nos fazer refletir sobre o frágil e provisório entre e dentro de nós mesmos. O pitoresco mora ao lado.


    Raphael Fonseca
    Crítico, historiador da arte e professor do Colégio Pedro II


    sexta-feira, 4 de maio de 2012

    LEO AYRES - Desbotar

    “Give me the bright lights”, diz a cantora Lana del Rey em um refrão de lamentação voltado a um amante. De onde poderia vir este brilho? As pistas estão em versos da mesma canção, “Brite lites”: “eu te procuro em revistas” e “estou acenando na tela do cinema”. O tapete vermelho, os flashes e a construção de um romance melodramático de Hollywood. Glitter, escarlate nos lábios excessivos e os quadrados de vidro que compõe o globo que impera sobre uma pista de dança. O momento posterior ao clique, quando se retira a máscara de glamour do rosto: insegurança e a companhia solitária de um abajur.

    Durante duas semanas o artista Leo Ayres participou do projeto Vitrine Efêmera, do Estúdio Dezenove, no bairro de Santa Tereza. Ao cobrir seu interior com película espelhada, criou um quadrado que refletia os objetos ao seu redor. Transeuntes se deparavam com sua própria imagem e se tornavam figuras de propaganda temporária para uma vitrine sem fins comerciais. O diretor de fotografia desta campanha era o sol que proporcionava uma variedade de tonalidades devido ao seu deslocamento. As formigas-operárias da colônia carioca freavam seu percurso e podiam se contemplar como rainhas. Um olhar mais atento ou a despedida do sol fazia perceber um segundo dado dentro deste aquário de vidro: lâmpadas acesas e agrupadas. Dentro de suas estruturas frágeis, flores iluminavam esta vitrine e tomavam o posto de micro holofotes. Objetos destinados a luminárias geram uma ambiência semelhante a um melancólico editorial de moda.

    O título deste conjunto de imagens é “Antes do amanhecer”, referência ao filme dirigido por Richard Linklater, de 1994. Dois personagens se conhecem em um trem, mas estão prestes a retornar a seus países de origem. Antes de fazê-lo, decidem passar suas últimas horas juntos até que o sol dite o fim deste romance.

    Poderia haver futuro nesta relação rápida? Leo Ayres indica que talvez sim, visto as pequenas luzes que ainda estão acesas. O sol diário se sobrepõe a elas, mas é incapaz de destruí-las. Apenas o tempo será capaz de responder e nunca de modo certeiro. Na ausência de um veredito, cabe ao espectador a oportunidade de se colocar no lugar de personagens do cinema, agora protagonistas de uma vitrine, e refletir sobre a brevidade de suas próprias relações. Colocando nas palavras de Lana del Rey, “o filme está desbotando, olhe para mim”.

    Raphael Fonseca
    Crítico e historiador da arte. Professor do Colégio Pedro II.


    sexta-feira, 20 de abril de 2012

    EXPOSIÇÃO - Alquimia

    A exposição individual “Gatilhos”, de Anton Steenbock, conta com curadoria de Fernanda Pequeno e está em cartaz até 27 de abril na Galeria de Arte Ibeu. Ao se adentrar o espaço expositivo, percebemos a multiplicidade de suportes trabalhados pelo artista: desenho, vídeo, fotografia e instalações. Diferentes objetos apropriados estão distribuídos pelo espaço, mas não transmitem sensação próxima ao amontoamento de informação visual. Pelo contrário, cada elemento é capaz de ocupar e respirar sem interferir no outro ser/obra ao seu lado.

    Uma palavra vem à mente e creio que esta possa contribuir com nossa fruição: alquimia. Em sua etimologia há uma definição advinda do grego: “mistura de vários sucos”. O trabalho de Steenbock investiga a construção de imagens através da justaposição de partes frágeis e advindas de diferentes naturezas. Se em um momento vemos duas placas de vidro que criam um telhado fictício para um balão preto preso ao início de um pé de feijão, em outra região da sala observamos o confronto entre uma vela apagada que deverá, em breve, ser acesa pela potência de uma lâmpada elétrica logo acima.

    Metáfora para as boas ideias, esta lâmpada aponta para uma segunda leitura junto a esta palavra pinçada: o artista como alquimista, ou seja, um cientista investigador das possibilidades dadas a partir destas conexões de mecanismos. A obra de arte aqui é como um experimento químico onde com um pequeno desvio matemático, com uma gota a mais da substância errada, explode e some aos olhos do espectador. “Sem título (vela autoextinguível)” comenta esse tópico: um copo d’água, linhas, uma pequena vela e uma caixa de fósforos oferecidos ao espectador. Se o público decide quebrar a quarta parede do cubo branco, o título da obra virá à tona e a própria chama da vela será responsável por destruir a estrutura do mecanismo, acionar a água e causar seu apagamento.

    Os alquimistas medievais buscavam a “pedra filosofal” e com ela seria possível, por exemplo, fabricar um elixir da vida capaz de garantir a eternidade. A poética de Anton Steenbock aponta para o lado inverso: a arte, a vida e as velas são efêmeras e se autodestroem aos nossos olhos. Esta mesma pedra seria capaz de transformar alguns metais em ouro, do mesmo modo que o artista recodifica objetos comuns em arte e aciona em nossas memórias imagens que vão desde pinturas que representam laboratórios de alquimia à famosa abertura do programa infantil de TV “Rá-Tim-Bum”.


    Raphael Fonseca
    Crítico e historiador da arte. Professor do Colégio Pedro II.


    sexta-feira, 30 de março de 2012

    CLARISSA CAMPELLO - Óleo sobre tela

    Ao se falar a palavra "arte", talvez a primeira coisa que venha à mente seja uma das técnicas mais tradicionais e institucionalizadas da História: a pintura. Se perguntarmos a um leigo no campo das artes visuais pelo nome de artistas referenciais, os nomes que virão serão, majoritariamente, de pintores. Passo por essa experiência todo ano a perguntar a meus novos alunos por exemplos de artistas e, não à toa, os nomes de Leonardo, Michelangelo e Rafael são sempre ouvidos, compondo um panorama do Renascimento com pitadas de "Tartarugas Ninja".

    A pergunta que fica, por outro lado, é: qual o lugar da pintura no cenário artístico contemporâneo? O que poderia ser produzido após o seu pretenso "esgotamento" junto ao expressionismo abstrato de Jackson Pollock e seu "retorno" (frisado e talvez mesmo inventado pela crítica) durante a década de 1980? Muitas são as respostas possíveis, diversos são os pincéis ativos atualmente. Alguns deles estão nas mãos de Clarissa Campello.

    Há uma anedota narrada por Plínio, o Velho em sua "História natural" sobre a origem do desenho e, por consequência, da arte. Na Grécia antiga, uma mulher, sabendo que iria se separar de seu amante que partia para uma longa viagem, resolveu desenhar sobre a sombra de seu perfil na parede. Deste modo, ela pode retratar a imagem da pessoa amada. O trabalho de Clarissa Campello não parte, em primeira instância, do desenho, mas da fotografia. Este aparato técnico é capaz de capturar de modo diverso, mas igualmente intimista, a mesma efemeridade da afetividade descrita por Plínio.

    Ao se apropriar de imagens que eternizam de modo privado um encostar de peles, a artista contribui com a perpetuação do afeto despendido entre duas pessoas. Não sabemos quais os laços que unem estes indivíduos pintados juntos, se é que algo ainda os une, mas quando recodificados em óleo sobre tela, estes corpos ganham um peso da tradição pictórica que os transforma em monumentos para as relações afetivas contemporâneas.

    Em um mundo dominado pela informação e por palavras que crêem que tudo explicam, perante estas imagens só nos resta uma opção: o silêncio. Qualquer som proferido por nossas bocas e qualquer excesso das teclas será um esforço em vão que censurará a intimidade óleo sobre tela à nossa frente. Contemplar mais e verbalizar menos.


    Raphael Fonseca
    Crítico, historiador da arte e professor do Colégio Pedro II