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  • sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

    ALBERTO MATTOS - Arte, alquimia e celebração

    Candelabro
    construído com rolhas de vinho e champagne
    Sonhar os objetos.  Esta é a questão que move o universo, construtivo e lúdico, nas obras de Alberto Mattos.  Há trinta anos, este designer e artista, cria e confecciona cenários, maquetes, objetos cenográficos e outros, para efeitos especiais. Seus trabalhos transitam por diversos meios de expressão, e devido a este fato, Mattos adquiriu experiência entre os fazeres (design e arte) elegendo um inusitado repertório de materiais. Atualmente trabalha com reutilização de rolhas de vinho, caixotes, folhas e massas secas, matérias que o artista elege, tendo em vista reaver os seus valores poéticos.

    Colecionando os mais diferentes artefatos, geralmente descartados e usados, Mattos propõe ressignificar afetivamente os objetos que elege, colocando-os novamente em circulação. Estas peças que produz se destacam devido aos procedimentos que cria e  utiliza. As caixas de vinho, por exemplo, são trabalhadas como verdadeiros mosaicos compostos de tipologias, brasões e logos, unidos entre si, com uma técnica que se situa, entre a colagem e a marchetaria. 

    Segundo o artista, as experiências com os materiais que utiliza, o levam a participar de uma espécie de alquimia, uma “transmutação lúdica” da matéria.   Na serie intitulada o Universo do Vinho, Mattos destaca os materiais que envolvem este senhor das estações, o vinho.  Trabalhar com este universo, diz  ele,  “é uma verdadeira viagem sensorial”.  E nela, o artista percebe que as rolhas revelam tantas nuanças entre o ouro e o vermelho, cores que  utiliza em suas peças.  A mesa Baco, por exemplo, idealizada a partir de caixas de vinho conjugadas a uma sutil palheta, revela em seu centro, as cores gravadas nas rolhas, originárias das diferentes cepas de uvas.  Outro objeto que se destaca nesta série é um imponente candelabro construído com rolhas, de vinho e champagne. É importante notar a iluminação desta peça.  A escolha do artista, uma temperatura de cor dourada, vai de encontro aos valores simbólicos contidos na matéria do vinho e do vinhedo.

    Os objetos criados por Alberto Mattos  respiram uma atmosfera de celebração,  que provém não apenas da utilização poética dos materiais, mas principalmente, por compartilharem  intuitivamente da mesa alquímica que o artista nos oferece: a  juventude secreta que brilha  no interior do sonho com os objetos.    



    América Cupello

    Fotógrafa, curadora e pesquisadora independente. Doutora em Artes Visuais pelo PPGAV – UFRJ.

    sexta-feira, 15 de junho de 2012

    MARCELLO VITIELLO - Plataformas Poéticas

    Plataforma III, 2012

    Plataforma IV, 2012
    Desde 2004, o pintor autodidata Marcello Vitiello vive e pinta entre a terra e o mar. Quinze dias reside em Macaé, sua terra natal. Quinze dias mora numa plataforma de petróleo, onde trabalha como fiscal de operações. Os temas de sua pintura abrigam tanto o repertório das paisagens, becos e ruas de Macaé, assim como as plataformas de petróleo, que hoje são tema recorrente em sua obra. Água, óleo, máquinas, tubulações fazem parte de um universo aparentemente inóspito, e compõe a natureza singular presente nas pinturas de Vitiello, especialmente na serie Plataformas. Seu método de trabalho nesta serie modificou sua forma de trabalhar as telas. Nos intervalos de sua jornada de afazeres, ele costuma parar para fotografar imagens e recortes que ele irá, posteriormente, pintar. Como ele próprio diz: “Pretendo pintar estas paisagens não de uma maneira de mera reprodução, mas para mostrar a atmosfera difícil e árdua do local com uma plástica visual particular”. A pintura deste artista revela, paradoxalmente, uma poética que visa o acolhimento, apesar do ambiente desolador das plataformas isoladas no oceano. A ideia da serie surgiu do contraste entre, a atmosfera azul do mar, com as pinturas das tubulações e luzes artificiais das plataformas. Vitiello declara: “que algo nesse ambiente de ilha” o incomodou e o fisgou com uma vontade de ação e criação. É importante notar, que o artista, também é um admirador de Edgar Allan Poe e de literatura fantástica. Assim como Poe, Vitiello reflete o simbolismo “da água”. Mas, as águas do pintor não são as mesmas “águas” do escritor. Suas “águas” pictóricas vibram no azul do inesperado mistério, que surge, no olhar do homem que frequenta uma ilha. Há uma prevalência do azul em suas telas, cor e presença marcante de um oceano forjado em cores fortes, enérgicas e luminosas.

    As estadias do artista em alto mar compõe um diário de viagem peculiar. Nas telas vibrantes desse diário percebe-se uma amorosidade ontológica pelos lugares, em especial, o ambiente confinado das plataformas – a ilha possível, composta por ferragens, reflexos e cores.


    América Cupello
    Fotógrafa, curadora e pesquisadora independente. Doutora em Artes Visuais pelo PPGAV – UFRJ.



    sexta-feira, 4 de maio de 2012

    FLAVIO COLKER - Fotografia e gesto iconoclasta

    O gesto, o fragmento e o fluxo são eventos de uma temporalidade não cronológica, mas também, peças-chaves na poética fotográfica de Flavio Colker. A obra desse artista percorre a potência da fotografia e revela ao espectador atento, um campo aberto às fabulações e aos mais diversos deslocamentos. O artista destaca de sua vasta experiência, a importância da intenção, e do gesto permeado pela sensação de incompletude e impermanência. Na era das frações de segundos e dos saltos quânticos o fotógrafo se depara com gestos que dão conta de um tempo latente e fugidio.A respeito do tempo-espaço do fotográfico Colker declara: "a velocidade também é um ambiente em si".

    Flavio Colker

    Enquanto muitos artistas produzem fotografias em series temáticas, Flavio Colker prefere navegar no fluxo, uma atitude iconoclasta com certeza. Este fato encantador personifica uma poética que se aproxima do estilo "on the road", pois o fotógrafo vive e atua entre as estradas do México e as do Brasil, sua terra natal. Suas fotografias estiveram presentes na ArtRio 2011 e podem ser vistas no site (www.flaviocolker.com) e na galeria Largo das Artes, no centro do Rio de Janeiro. Percebe-se nas poéticas contemporâneas, na qual incluo a obra de Colker, uma fotografia que percorre caminhos que se constroem à medida que são vivenciados. Estes caminhos sugerem uma viagem para além das categorias fotográficas e em consequência dessa opção, são percorridas trilhas arriscadas que acessam, em vez de calmarias, abalos aos velhos paradigmas. Na imagem intitulada "Horizonte sem noção" que acompanha o texto percebe-se uma insólita paisagem-árvore invertida. Esta intrigante imagem remete ao cosmo dual da árvore; uma matéria-origem que cresce tanto na direção da terra como do céu. Mas importante, esta imagem remete á própria natureza invertida da fotografia, entidade fronteiriça por excelência.

    As imagens de Flavio Colker parecem conduzir à viagem tão esperada e, ao mesmo tempo, tão fugidia. A viagem que esta na "próxima" imagem, aquela que o fotógrafo deseja no acalentado momento vindouro. Gera-se com este movimento uma espécie de espera. Espera essa, que o artista tenta alongar ao máximo, no seu laboratório afetivo do tempo. Talvez essa expectativa, esse percurso desejado pelo fotógrafo seja o próprio gesto que pressente, entre as imagens - aquelas ainda não reveladas.


    América Cupello
    Fotógrafa, curadora e pesquisadora independente.Doutora em Artes Visuais pelo PPGAV – UFRJ